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    "Você... e O Natal..."



    Glitter Para Orkut

    "Você... e O Natal..."
     
    Festa na terra e no céu...
    Só eu só... tão triste assim...
    - Quem dera Papai Noel
    trouxesse Você pra mim!
     
    Quem dera Papai Noel
    descendo pelos espaços
    me desse um pouco de céu
    pondo Você em meus braços...
     
    Neste dia belo e doce
    de festa, - sentimental,
    - quem dera que Você fosse
    meu presente de Natal !

    J.G. de Araujo Jorge (1914 / 1987 )
    do livro "Trevo de Quatro Versos" 1a ed. 1964


    Glitter Para Orkut
    Natal - Glitter Para Orkut



    Cartões Animados
    www.cartooes.com

    Vocação para a felicidade

     


    Recados Para Orkut - RecadosOnline.com 

    Vocação para a felicidade

     

    Não escreverei versos chorosos
    cantando tristezas infinitas,
    amores impossíveis,
    saudades dolorosas,
    paixões trágicas
    e não correspondidas.

    Tenho a vocação para a felicidade.
    Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
    Não preciso da tristeza
    para justificar a inutilidade da vida.

    Não preciso morrer e
    ir ao céu
    para encontrar a felicidade.
    Quero-a e tenho-a
    neste espaço terreno
    do aqui e do agora.

    A felicidade,
    tal e qual, o amor
    está dentro de mim
    e transborda
    em ternuras,
    em melodias,
    em carinhos,
    em alegrias,
    em cantos e encantos.

    Sou feliz e não preciso me justificar.
    Sorrio sem ver passarinho verde.
    Não tenho medo de ser feliz .

    Faço minha estrela brilhar
    sem receio dos encontros, desencontros, encantos e
    desencantos que o amor me diz.

    Contrariedades? Eu as tenho!
    E quem não as tem na vida secular?
    Escassez de dinheiro?
    Nem é bom falar.

    Amores não correspondidos?
    Separações?
    Rejeições?
    Saudades incuráveis?

    Carinhos reprimidos,
    ternuras guardadas, sem a contra
    parte do outro?
    Eu tenho aos montões.
    Sou a rainha das perdas,
    necessárias ao meu crescimento.

    Contudo quem não soube
    a sombra
    não sabe a luz.

    E num livro de matemática existencial
    juntei todos esses problemas insolúveis,
    com as respostas nas últimas páginas.

    Mas pra que me debruçar
    sobre eles, procurando a solução
    se a própria vida me conduz
    a resposta final?

    Sem medo de ser feliz
    vou por aqui e por ali...
    Por onde os caminhos,
    as trilhas,
    os atalhos me levarem ,
    traçando meu rumo.

    Às vezes com alguma tristeza
    mas quem disse que felicidade
    é o contrário de tristeza?
    Tristeza é só uma momentânea
    falta de alegria!

    É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
    e quando a infelicidade
    passar por aqui,
    minhas malas estarão prontas
    para eu ir por ali.

    Carlos Drummond de Andrade

     


    Oração a mim mesmo

     

    Glitter Para Orkut

     

    Oração a mim mesmo

     

    Que eu me permita olhar e escutar e sonhar mais.

    Falar menos. Chorar menos.

    Ver nos olhos de quem me vê a admiração que eles me têm

    e não a inveja que prepotentemente penso que têm.

    Escutar com meus ouvidos atentos e minha boca estática,

    as palavras que se fazem gestos e os gestos que se fazem palavras.

    Permitir sempre escutar aquilo que eu não tenho me permitido escutar.

    Saber realizar os sonhos que nascem em mim e por mim

    e comigo morrem por eu não os saber sonhos.

    Então, que eu possa viver os sonhos possíveis e os impossíveis;

    aqueles que morrem e ressucitam

    a cada novo fruto,

    a cada nova flor,

    a cada novo calor,

    a cada nova geada,

    a cada novo dia.

    Que eu possa sonhar o ar,

    sonhar o mar,

    sonhar o amar,

    sonhar o amalgamar.

    Que eu me permita o silêncio das formas,

    dos movimentos,

    do impossível,

    da imensidão de toda profundeza.

    Que eu possa substituir minhas palavras pelo toque,

    pelo sentir,

    pelo compreender,

    pelo segredo das coisas mais raras,

    pela oração mental (aquela que a alma cria e que só ela,

    alma, ouve e só ela, alma, responde).

    Que eu saiba dimensionar o calor,

    experimentar as curvas,

    desenhar as retas,

    e aprender o sabor da exuberância que se mostra

    nas pequenas manifestações da vida.

    Que eu saiba reproduzir na alma a imagem

    que entra pelos meus olhos

    fazendo-me parte suprema da natureza,

    criando-me e recriando-me a cada instante.

    Que eu possa chorar menos de tristeza

    e mais de contentamento.

    Que meu choro não seja em vão,

    Que em vão não sejam minhas dúvidas.

    Que eu saiba perder meus caminhos

    mas saiba recuperar meus destinos com dignidade.

    Que eu não tenha medo de nada,

    principalmente de mim mesmo:

    _Que eu não tenha medo de meus medos!

    Que eu adormeça toda vez que for derramar lágrimas inúteis,

    e desperte com o coração cheio de esperanças.

    Que eu faça de mim um homem sereno

    dentro de minha própria turbulência,

    sábio dentro de meus limites pequenos e inexatos,

    humilde diante de minhas grandezas tolas e ingênuas

    (que eu me mostre o quanto são pequenas minhas grandezas

    e o quanto é valiosa minha pequenez).

    Que eu me permita ser mãe,

    ser pai, e, se for preciso, ser órfão.

    Permita-me eu ensinar o pouco que sei

    e aprender o muito que não sei,

    traduzir o que os mestres ensinaram

    e compreender a alegria com que os simples

    traduzem suas experiências;

    respeitar incondicionalmente o ser;

    o ser por sí só,

    por mais nada que possa ter além de sua essência,

    auxiliar a solidão de quem chegou,

    render-me ao motivo de quem partiu

    e aceitar a saudade de quem ficou.

    Que eu possa amar e ser amado.

    Que eu possa amar mesmo sem ser amado

    fazer gentilezas quando recebo carinhos;

    fazer carinhos mesmo quando não recebo gentilezas.

    Que eu jamais fique só,

    mesmo quando eu me queira só.

    Amém.

    (Oswaldo Antônio Beggiato)




    Algo mais no Natal


    Recados e Imagens - Feliz Natal - Orkut 

     
    Algo mais no Natal

    Senhor Jesus!
    Diante do Natal, que te lembra
    a glória da manjedoura,
    nós te agradecemos:
    a música da oração;
    o regozijo da fé;
    a mensagem de amor;
    a alegria do lar;
    o apelo à fraternidade;
    o júbilo da esperança;
    a benção do trabalho;
    a confiança no bem;
    o tesouro de tua paz;
    a palavra da Boa Nova;
    e a confiança no futuro.

    Entretanto oh! Divino Mestre,
    de corações voltados para o
    teu coração, nós te
    suplicamos algo mais!... 
     
    Concede-nos
    Senhor, o dom inefável da
    humildade para que
    tenhamos a precisa coragem
    de seguir-te os exemplos!
     
     
     
    Emmanuel
    (Mensagem do livro À Luz da Oração:
    Antologia de Preces Mediúnicas,
    Francisco Candido Xavier)
     
     
     

    Canção para uma Valsa Lenta

     
     

    Canção para uma valsa lenta

     

     

    Minha vida não foi um romance...
    Nunca tive até hoje um segredo.
    Se me amas, não digas, que morro
    De surpresa... de encanto... de medo...

    Minha vida não foi um romance...
    Minha vida passou por passar.
    Se não amas, não finjas, que vivo
    Esperando um amor para amar.

    Minha vida não foi um romance...
    Pobre vida... passou sem enredo...
    Glória a ti que me enches a vida
    De surpresa, de encanto, de medo!

    Minha vida não foi um romance...
    Ai de mim... Já se ia acabar!
    Pobre vida que toda depende
    De um sorriso... de um gesto... um olhar...



    (Mário Quintana, Canções, 1946)
     
     
     


    Recados e Imagens - Mulheres - Orkut

     
     
    "SÓ"
     
    Eu tenho pena da Lua!
    Tanta pena, coitadinha,
    Quando tão branca, na rua
    A vejo chorar sozinha!...
     
    As rosas nas alamedas,
    E os lilases cor da neve
    Confidenciam de leve
    E lembram arfar de sedas...
     
    Só a triste, coitadinha...
    Tão triste na minha rua
    Lá anda a chorar sozinha...
     
    Eu chego então à janela:
    E fico a olhar para a Lua...
    E fico a chorar com ela!...
     
    FLORBELA ESPANCA
    (23/04/1917)
     
     

    "O Lado Bom"

     
     
     
     
     
    12 de Junho 
     
     
     
     
     
    " O Lado Bom "

    Quero ser uma ilha,
    um pouco de paisagem,
    uma janela aberta,
    uma montanha ao longe,
    um aceno de mar,

    quando precisares de sonho,
    de um canto de beleza,
    de um pouco de silêncio,
    ou simplesmente
    de sol... e de ar...

    Quero ser o lado bom
    em que pensas,
    (isto que intimamente
    a gente deseja
    mas nem sempre diz)
    - quero ser, naquela hora,
    o que sentes falta
    para seres feliz...

    Que quando pensares
    em fugir de todos
    ou de ti mesma, enfim,
    penses em mim...



    ( Poema de JG de Araujo Jorge
    do livro" A  Sós..." 1a ed. 1958 )
     
     
     
     
     
     
     

    Vermelho e Branco

     
     

    Vermelho e branco


    O sangue vermelho
    do homem branco,
    do homem preto,
    do homem amarelo,
    o sangue é vermelho,
    é um sangue só.

     

    O leite branco
    da mulher branca,
    da mulher preta,
    da mulher amarela,
    o leite é branco,
    é um leite só.

     

    Deus pos por dentro de homens
    e mulheres
    de aparências tão diferentes,
    uma humanidade só:
    - o mesmo anseio, a mesma fome,
    o mesmo sonho, o mesmo pó;
    o mesmo sangue vermelho,
    da cor da vida, da cor
    do amor,
    e mais:
    o mesmo leite branco,
    da cor da paz.

     

    (Poema de JG de Araujo Jorge
    do livro – Mensagem – 1966 )

     

        

     

    JG de Araújo Jorge

     
     
     
     
     
     
    Paradoxo

    A dor que abate, e punge, e nos tortura,
    que julgamos às vezes não ter cura
    e o destino nos deu e nos impôs,
    é pequenina, é bem menor, e até
    já não é dor talvez, dor já não é
    dividida por dois.
    A alegria que às vezes num segundo
    nos dá desejos de abraçar o mundo,
    e nos põe tristes, sem querer, depois,
    aumenta, cresce, e bem maior se faz,
    já não é alegria, é muito mais
    dividida por dois.
    Estranha essa aritmética da vida,
    nem parece ciência, parece arte;
    compreendo a dor menor, se dividida,
    não entendo é aumentar nossa alegria
    se essa mesma alegria
    se reparte.
     

     
    ( Poema de JG de Araujo Jorge
    do livro- Festa de Imagens – 1948)
     
     
     
     

    JG de Araújo Jorge

     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
    "Solidão "


    Por certo a pior solidão
    É aquela que a gente sente
    Sem ninguém no coração...
    No meio de muita gente...


    Praias longe, em solidão
    Fora de todas as rotas,
    Tal como o meu coração
    Só como o sonho... das gaivotas...
     
     
     
    JG de Araújo Jorge
    (do Livro "Trevo de Quatro Versos", 1a ed. 1964)
     
     
     
     

    Florbela Espanca

     

     

    Alma Perdida

     

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma de gente,
    Tu és, talvez, alguém que se finou!

     

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dor, suavemente...
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguém que quis amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste ... e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguém é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa à noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!...

    Florbela Espanca

    (do Livro de Mágoas, 1919) 

    Àlvaro de Campos

     
     
     

    Na Noite Terrível...

      

    Na noite terrível, substância natural de todas as noites, 
    Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites, 
    Relembro, velando em modorra incômoda, 
    Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. 
    Relembro, e uma angústia 
    Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. 
    O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver! 
    Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. 
    Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. 
    Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures, 
    Na ilusão do espaço e do tempo, 
    Na falsidade do decorrer. 

    Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei; 
    O que só agora vejo que deveria ter feito, 
    O que só agora claramente vejo que deveria ter sido — 
    Isso é que é morto para além de todos os Deuses, 
    Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ... 

    Se em certa altura 
    Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; 
    Se em certo momento 
    Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; 
    Se em certa conversa 
    Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — 
    Se tudo isso tivesse sido assim, 
    Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro 
    Seria insensivelmente levado a ser outro também. 

    Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido, 
    Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo; 
    Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; 
    Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, 
    Claras, inevitáveis, naturais, 
    A conversa fechada concludentemente, 
    A matéria toda resolvida... 
    Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. 

    O que falhei deveras não tem sperança nenhuma 
    Em sistema metafísico nenhum. 
    Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei, 
    Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? 
    Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. 
    Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos, 

    Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca 
    Como uma verdade de que não partilho, 
    E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

     Álvaro de Campos

     

    Selo da Campanha

    EU PARTICIPO!!!

    SÓ FALTA VC!!!  

    Carlos Drummond de Andrade

     

     

    Consolo na Praia

     

    Vamos, não chores...
    A infância está perdida.
    A mocidade está perdida.
    Mas a vida não se perdeu.


    O primeiro amor passou.
    O segundo amor passou.
    O terceiro amor passou.
    Mas o coração continua.

    Perdeste o melhor amigo.
    Não tentaste qualquer viagem.
    Não possuis casa, navio, terra.
    Mas tens um cão.

    Algumas palavras duras,
    em voz mansa, te golpearam.
    Nunca, nunca cicatrizaram.
    Mas, e o humor?
     

    A injustiça não se resolve.

    À sombra do mundo errado

    murmuraste um protesto tímido.

    Mas virão outros.

     

    Tudo somado, devias

    precipitar-te, de vez, nas águas.

    Estás nu na areia, no vento...

    Dorme, meu filho.


    Carlos Drummond de Andrade

    (do livro A Rosa do Povo, 1945)

     


     

    JG de Araújo Jorge

       

    MANHÃ PARA SE SER FELIZ

    Esta é uma manhã para se ser feliz
    em algum lugar, de algum modo, -
    é uma manhã para se ser feliz...

    Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
    abraçados e tontos, num remoinho,
    não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores,
    de tudo,
    - envergonhado porque estou sozinho...


    Esta é uma manhã que me fala de ti, nas nuvens,
    na transparência do ar,
    neste azul do céu, imaculado,
    na beleza das coisas tocadas de sonho
    e imaterialidade...

    Uma manhã de festa
    para se ser feliz de verdade !
    Esta é uma manhã
    para te ter ao meu lado...

    Quando Deus fez uma manhã como esta estava
    com certeza apaixonado...

    (Poema de JG de Araujo Jorge –
    do livro - Espera- 1960)

     

     

    Carlos Drummond de Andrade

     
     
    O Tempo 
     
     
     
    Quem teve a idéia
    de cortar o tempo em fatias,
    a que se deu o nome de ano,
    foi um indivíduo genial!
    Industrializou a esperança,
    fazendo-a funcionar
    no limite da exautão.
     
    Doze meses é suficiente para qualquer ser humano
    se cansar e entregar os pontos.
     
    Aí entra o milagre da renovação
    e tudo começa outra vez, 
    Com outro número
    e outra vontade de acreditar
    que daqui para diante vai ser diferente.
     
     
    (Carlos Drummond de Andrade)
     
     
     
     
     
     
     

    Receita de ano novo


    Para você ganhar belíssimo Ano Novo
    cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
    (mal vivido talvez ou sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 

    novo até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?)
     

    Não precisa
    fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar arrependido
    pelas besteiras consumidas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto de esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.
     

    Para ganhar um Ano Novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre
     
     
     
     (Carlos Drummond de Andrade)
     

    Vinícius de Moraes

     
     
     
     
     
    Poema de Natal


    Para isso fomos feitos:
    Para lembrar e ser lembrados
    Para chorar e fazer chorar
    Para enterrar os nossos mortos —
    Por isso temos braços longos para os adeuses
    Mãos para colher o que foi dado
    Dedos para cavar a terra.
    Assim será nossa vida:
    Uma tarde sempre a esquecer
    Uma estrela a se apagar na treva
    Um caminho entre dois túmulos —
    Por isso precisamos velar
    Falar baixo, pisar leve, ver
    A noite dormir em silêncio.
    Não há muito o que dizer:
    Uma canção sobre um berço
    Um verso, talvez de amor
    Uma prece por quem se vai —
    Mas que essa hora não esqueça
    E por ela os nossos corações
    Se deixem, graves e simples.
    Pois para isso fomos feitos:
    Para a esperança no milagre
    Para a participação da poesia
    Para ver a face da morte —
    De repente nunca mais esperaremos...
    Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
    Nascemos, imensamente.

    Vinicius de Moraes
    (Extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor -
    Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.)
     
     
     
     
     
     

    Carlos Drummond de Andrade

     
     
     
     
     
    A FLOR E A NÁUSEA
     
     
    Preso à minha classe e a algumas roupas,
    Vou de branco pela rua cinzenta.
    Melancolias, mercadorias espreitam-me.
    Devo seguir até o enjôo?
    Posso, sem armas, revoltar-me?
     
    Olhos sujos no relógio da torre:
    Não, o tempo não chegou de completa justiça.
    O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
    O tempo pobre, o poeta pobre
    fundem-se no mesmo impasse.
     
    Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
    Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
    O sol consola os doentes e não os renova.
    As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
     
    Vomitar esse tédio sobre a cidade.
    Quarenta anos e nenhum problema
    resolvido, sequer colocado.
    Nenhuma carta escrita nem recebida.
    Todos os homens voltam para casa.
    Estão menos livres mas levam jornais
    e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
    Crimes da terra, como perdoá-los?
    Tomei parte em muitos, outros escondi.
    Alguns achei belos, foram publicados.
    Crimes suaves, que ajudam a viver.
    Ração diária de erro, distribuída em casa.
    Os ferozes padeiros do mal.
    Os ferozes leiteiros do mal.
     
    Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
    Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
    Porém meu ódio é o melhor de mim.
    Com ele me salvo
    e dou a poucos uma esperança mínima.
     
    Uma flor nasceu na rua!
    Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
    Uma flor ainda desbotada
    ilude a polícia, rompe o asfalto.
    Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
    garanto que uma flor nasceu.
    Sua cor não se percebe.
    Suas pétalas não se abrem.
    Seu nome não está nos livros.
    É feia. Mas é realmente uma flor.
     
    Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
    e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
    Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
    Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
    É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
     
    Carlos Drummond de Andrade
    (do livro A Rosa do Povo - 1945)
     
     
     
     
     
     

    Gonçalves Dias

     
     
     
     
    Canção do Exílio

     

    Minha terra tem palmeiras,

    Onde canta o Sabiá;

    As aves, que aqui gorjeiam,

    Não gorjeiam como lá.

     

    Nosso céu tem mais estrelas,

    Nossas várzeas têm mais flores,

    Nossos bosques têm mais vida,

    Nossa vida mais amores.

     

    Em cismar, sozinho, à noite,

    Mais prazer encontro eu lá;

    Minha terra tem palmeiras,

    Onde canta o Sabiá.

     

    Minha terra tem primores,

    Que tais não encontro eu cá;

    Em cismar — sozinho, à noite —

    Mais prazer encontro eu lá;

    Minha terra tem palmeiras,

    Onde canta o Sabiá.

     

    Não permita Deus que eu morra,

    Sem que eu volte para lá;

    Sem que desfrute os primores

    Que não encontro por cá;

    Sem qu'inda aviste as palmeiras,

    Onde canta o Sabiá.

     

    Gonçalves Dias

    (Coimbra - Julho de 1843)

     

     

    JG de Araújo Jorge

     
     
     
    "Desafio das Manias"
     
     
    Minha queridíssima amiga ESTELA MARIS (http://brilhosdomar.spaces.live.com/) me convidou, 
    e não tive como recusar o 
     
    "Desafio das Manias"
     
    Cada participante tem de enunciar 5 manias, hábitos muito pessoais, que os diferenciam do comum dos mortais. 
    E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 outros blogueiros para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos Blogs aviso do "recrutamento".
     
    Cada participante deve reproduzir este "regulamento"no seu Blog.
     
     
     
    Minhas cinco principais manias são:
     
     
    1- Colecionar tudo que tenha girassóis (minha flor preferida); 
     
     
    2- Conversar com o meu cãozinho Luck 
    (mas eu sou normal!) Rsrs;
      
     
    3- Lavar as mãos várias vezes ao dia (Freud explica?);
      
     
     
     
    4- Comprar calçados (sandálias, sapatos);
     
     
    5- E fazer palavras cruzadas antes de dormir. 
     
      
     
     
     
     
    As minhas convidadas são:
     
     
     
     
    4-  Denise Rocha  (http://zizerocha2.spaces.live.com/);
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
      
     
     
    " Náufrago "


        
    Nada sei de ti. Me sinto como o homem do farol
    esquecido no mar,
    isolado do mundo e sem contato com a vida,
    sem telégrafo, sem porto, sem navio,
    meses a fio a esperar...
     


    Nada sei de ti. Estou sem notícias, como um náufrago
    entre praias e gaivotas,
    fora de todas as rotas...
     


    Olho o limpo horizonte, sem um aceno de fumo.
    Olho o céu, desesperado...
    Tuas mãos de velas pandas, teus olhos, - bússola e estrela -
    quando me encontrarão?
     


    Ah se fossem pombos-correio estas selvagens gaivotas
    que planam sobre a minha angústia,
    sem ver a minha solidão...
     



    ( Poema de JG de Araujo Jorge
    do livro" A  Sós..." 1a ed. 1958 )
     
     
     

    Carlos Drummond de Andrade

                  

      Perolagem da Vida

       

    Como a vida muda.
    Como a vida é muda.
    Como a vida é nula.
    Como a vida é nada.
    Como a vida é tudo.
    Tudo que se perde
    mesmo sem ter ganho.
    Como a vida é senha
    de outra vida nova
    que envelhece antes
    de romper o novo.
    Como a vida é outra
    sempre outra, outra
    não a que é vivida.
    Como a vida é vida
    ainda quando morte
    esculpida em vida.
    Como a vida é forte
    em suas algemas.
    Como dói a vida
    quando tira a veste
    de prata celeste.
    Como a vida é isto
    misturado àquilo.
    Como a vida é bela
    sendo uma pantera
    de garra quebrada.
    Como a vida é louca
    estúpida, mouca
    e no entanto chama
    a torrar-se em chama.
    Como a vida chora
    de saber que é vida
    e nunca nunca nunca
    leva a sério o homem,
    esse lobisomem.
    Como a vida ri
    a cada manhã
    de seu próprio absurdo
    e a cada momento
    dá de novo a todos
    uma prenda estranha.
    Como a vida joga
    de paz e de guerra
    povoando a terra
    de leis e fantasmas.
    Como a vida toca
    seu gasto realejo
    fazendo da valsa
    um puro Vivaldi.
    Como a vida vale
    mais que a própria vida
    sempre renascida
    em flor e formiga
    em seixo rolado
    peito desolado
    coração amante.
    E como se salva
    a uma só palavra
    escrita no sangue
    desde o nascimento:
    amor, vidamor!

    Carlos Drummond de Andrade